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Só não soltem minhas mãos, por favor

2.14.2016

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Leia ao  som de I won't let you go
A imagem dela foi a primeira que vi ao acordar fora daquele lugar escuro. Seus olhos já me observavam com tanto amor que me apaixonei naquele momento, e sentir seu toque foi o maior presente de boas vindas a, como disse Shakespeare, esse mundo de loucos. E depois ele me segurou com todo aquele cuidado, como se eu fosse quebrar a qualquer instante com um movimento em falso. Minutos depois eu estava dentro de uma caixa transparente na qual eu dançava meus olhos procurando por onde escapar, ali estava eu, já seguindo a ordem dos astros e contrariando a normalidade em ter alta no dia seguinte da minha chegada. Eu os vi pelo espelho, e seus olhares eram preocupados, mas no fundo sabiam que logo eu sairia dali. Ela pensava: "filha de peixe, peixinho é" e então de fato eu logo estaria saltando dali. E enquanto eu os contemplava, percebi o incerto, mas já era tarde, porque eu já estava perdidamente apaixonada. 

Eu queria de fato ter lembranças claras daquela época, as imortalizariam numa caixa que deixaria passando por gerações, afinal, minha alma sempre me disse que uma das missões a mim endereçadas é o de passar legados, gerar heranças regadas de emoções e orgulho ao serem deixadas.

O tempo passou e minhas percepções apenas cresceram, o jeito quieto e observador já não era tão estranho, descobri então que fazia apenas parte dos ossos do oficio, e eles também souberam, mas volta e meia esquecem e ela me olha daquele jeito como se eu tivesse enlouquecido e ele se esconde pra achar qualquer coisa desse tipo. Numa ansiedade depravada eu peguei suas maiores qualidades, e nessa ânsia de ganhar o mundo, também seus defeitos. Tento me livrar de arrependimentos, mas às vezes isso me pega, e quando os olho só posso parar no meio do asfalto e observa-los atravessando desesperadamente a faixa incontáveis vezes.

São tempos de ganhos, perdas, e acima de tudo aprendizados. As nuvens que me cobrem têm me mostrado cada vez mais que sou aquilo que disse que seria em uns momentos de inocência. E os olho e digo que não, a menina de vocês continua aqui, um pouco mais sensível, rude sem querer ser nem um pouco, mas meus dedos ainda encontram-se entrelaçados no de vocês, como quando eu ocupava o meio em nossos passeios no shopping. Eu ainda sou aquela garotinha pai, que te agarrou o braço a primeira vez que entrou no mar, e a mesma mãe, que pediu para você ficar lá comigo ou só me tirar dali. E eu escrevo isso porque eu quero se exploda o mundo e suas limitações, eu sinto, emoções tão intensas que eu poderia gritar agora apenas que eu sinto... E eu sinto muito.

E eu os amo com todo amor do mundo.

Pela primeira vez

2.10.2016

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Ouça "For the first time" enquanto lê
Estive te olhando e não me contento com que vejo. Me responde aonde foi parar aquela menina que eu deixei nesses aposentos, cheia de brilho nos olhos que marejavam toda vez que ouvia uma história nova? É sério, me responde. Meses atrás eu resolvi que era hora de agir mais de perto e te fiz me ver no meio daquelas belezas que hipnotizam, e você me acolheu porque me reconheceu sem ao menos saber que de fato era eu. Como amo essa sua sensitividade! Em poucos dias consegui despertar em você o sentimento quase materno de proteção, daqueles de doação que eu imagino que um dia você entenda melhor, ou não, não consigo medir até onde vai sua teimosia diante dos seus desejos mais intensos e íntimos. Me fiz passageira nessa visita e então a vi se fechar, e eu deveria me lembrar que você não é nada boa com despedidas, e muito menos perdas, não é a toa que você ainda se lembra de mim sempre que entra naquele quarto. 

Decidi que você precisava de algo permanente, e o fiz, ela chegou e você entregou seu coração de uma forma tão bonita que eu nem podia acreditar. Já viu pedra derreter do nada? Pois então, eu não, mas te vi e me fez sentir a surpresa que eu acho que teria ao presenciar. Mas apesar disso você me mostra que é mais difícil do que me contaram aqui que imaginaram que você seria quando a viram ao nascer. 

Vem cá, menina, deixa eu te contar uma coisa: espanta o medo, enxugue as lágrimas tire a poeira desses sapatos e então você voltará para casa. Pode demorar, pois você mesmo diz que nada que vale a pena vem fácil, aliás.. você tem uma prova, não? Quantos anos desde que você o observou, fez um pedido baixinho e depois esqueceu de tudo? Acredite, seus desejos mais profundos, aqueles que vem do coração, da inocência da sua alma que eu sei que saltita feito criança são os que sempre se realizam. Pode tardar, mas eles vêm. 

Não digo hoje, te deixo sofrer mais um pouquinho só para lembrar como é o alivio em deixar esse sentimento fatídico para trás e como é ótimo combatê-lo sempre que ele chega, mas amanhã, ao acordar, olhe ao seu redor como se o que sua visão captar fosse visto pela primeira vez. Ao preparar aquele café sinta como se estivesse preparando-o pela primeira vez e se permita a duvida de o estar fazendo muito fraco ou amargo, e aspire seu aroma como se nunca houvesse feito isso quando era criança... E o gosto, ah o gosto! Ah! Observe o céu e dê boas vindas, E quando for vê-lo, olhe-o como da primeira vez, abrace o sentimento de encontro e ria da sua falta de reação quando seus sorrisos se combinaram pela primeira vez, e seus olhos captaram a energia um do outro. Abrace os que ama naquela duvida de primeira ou última vez, e sempre terá uma intensidade única. 

Vem cá, menina, se afasta dessa aflição, da ansiedade que te corrompe os planos, te fixa no mesmo espaço. Confia nas linhas que te foram escritas e creia que tudo pode dar certo. O descaso está ai, mas o acaso também, e você, melhor do que ninguém, sabe muito bem disso. 

O músico

1.17.2016

- "You only know you love her when you let her go." - a melodia ecoava pelo pátio...
- Mas eu não a deixarei ir. - E seu olhar me fisgou de todas maneiras que poderia, sem ao menos deixar aviso prévio do que viria em seguida.
Escureceu quando as luzes eram o único refúgio procurado pelos surtos de lucidez momentâneos. As pessoas me olhavam sem entender minha expressão desajustada àquele dia tão bonito. 

Desejei a noite com todas as minhas forças, e ela chegou arrastando-se, apenas por provocação. Puxei a cadeira e sorri para eles ao meu redor. Meus olhos estavam no palco. E quando a melodia começou a inundar o bar, percebi o misto de calmaria e excitação em cada um daqueles olhares que deixavam-se ser analisados por mim, a psicologa que analisa tudo  que vê e joga num caderninho no fundo da gaveta do escritório. E então eu me distrai, e as luzes se apagaram, e eu o vi. Pelos deuses! Eu poderia levantar daquela cadeira e me esgueirar para a porta pelo medo do que me atrai e retrai, mas meus pés fincaram no chão daquela maneira que eu não vivenciava há anos. 

Era o tom de voz mais bonito que já alcançara meus ouvidos, e não só me fez desistir de qualquer hipótese de fugir, mas trouxe a calmaria que eu desejei durante toda a semana. Minha risada ecoaria ali se minha sensatez não me ajudasse a compartilhar minhas emoções apenas internamente. Ali estava ele, no palco, observando as mesas e seu público que o idolatrava com os olhos. Vi a satisfação cintilar em seu olhar, e ele fechou os olhos, suspirando com a nota que me deixou fantasiar tua presença ao meu lado.

Sua voz rouca cessou e agradeceu a presença de todos. As luzes apagarem-se e apenas alguns feixes iluminavam o ambiente, minhas companhias esgueiravam-se para lá e para cá procurando sua diversão, e depois de muito insistirem também levantei e fui para um canto próximo a saída de emergência.

O som mudou, minha visão embaçou com a neblina aromatizada a minha frente. Alguém me moveu e meus olhos fecharam-se quando aquele  tom de voz me chamou pelo apelido quando ninguém nunca o fazia. Deixei que me levasse para o meio, onde uma luz opaca tentava nos iluminar, mas não conseguiria, pois em silêncio prometemos que hoje seriamos apenas eu e ele, e a única luz que nos iluminaria seria a que refletíssemos entre nós.